Memória

por samanthatoledo

O texto abaixo foi escrito em 2010 no meu antigo blog. Uma pessoa especial o comentou: Professor Latuf, que faleceu no mesmo ano. Escreveu ele: “Que maravilha de texto: saber-sabor! Este doce é também do menu de minha infância, porque sou de origem libanesa. Aliás, fui convidado para a recepção, no Rio de Janeiro, ao Presidente do Líbano; veio-me o convite da parte do Consulado do Líbano e enquanto “dos libaneses que contribuem com a cultura do Brasil”. Parabéns, Samantha, você escritora!” Seu blog, belíssimo (ele escrevia textos impecáveis e lindos, era professor, semiólogo, poeta…) é o: http://professorlatuf.blogspot.com.br/.

Nas minhas festas de aniversário de criança, havia alfenins brancos e rosas em bandejas de prata. Quando novamente me delicio com um alfenim e sinto o seu retorcido delicado, como nó no cabelo da menina que não se penteia, pois a boneca a reclama imperiosamente, quando novamente quebro um nos dentes, como quem prova a madeleine que ressuscita a memória, tenho, de volta, os lençóis imaculados, o crivo da avó e as lágrimas preciosas da infância – que eu, quando menina novinha, quis conservar numa tacinha, como ouvi dizer que fez um santo – sobre a minha mesa.

PS: O alfenim, que o povo também chama alfeninho – do árabe al-fanid – é, na definição de Luís da Câmara Cascudo, uma massa de açúcar, seca, muito alva, vendida em forma de flores e outras.