Ao meu tio

por samanthatoledo

O cuidado de meu tio, Toledo, com tudo o que o cerca — puro como o de seu pai, meu avô, alfaiate e cultivador de uma roseira: ofícios simples, ao menos na conjuntura em que se realizaram, mas que ele exercia com a finura de um virtuose —, nunca vi semelhante. Se, contudo, os cuidados de ambos se equivalem na sua forma — mesmo a execução de algo simplíssimo é, pelas mãos de meu tio e meu avô, excelsa: por exemplo, uma prataria polida por meu tio ganha um fulgor sublime, e uma fazenda, cortada e costurada por meu avô, é limpíssima, nela nenhuma linha sobra —, o cuidado de meu avô fica devendo, ao de meu tio, algo de atilado e apaixonado, pois, além de extremamente cuidadoso, meu tio é extremamente amoroso.

Com seu cuidado e amor, ele conserva tudo de relevante da história da família, como uma das poucas fotos tiradas de sua irmã, minha mãe, criança e loira, e os alvíssimos crivos de sua mãe, minha avó. Criança, eu as via — a preciosa caixa de fotografias, que, não fosse por ele, teria seu conteúdo perdido ou avariado; as caixas de lindos crivos —, e me parecia que meu tio era uma entidade, pelas inúmeras “providências que tomava”, e pelo belo, palpável ou não, que ele criava em nossa casa. Infundiu-me, desse modo, o amor ao belo, pois eu, criança, era como a prataria que ele polia, em cujo fulgor natural ele depositava sua fé, e a que bastava dar o lustro para explodir num prata líquido, posta para secar e descansar perto da capela da casa. Meu tio revelou em mim, como que lustrando, o fulgor do amor ao belo, à literatura e às artes, o que estou certa de possuir de mais brilhante.

Ele me concebeu túnica de maravilhoso cetim, para as coroações do mês de Maria; ele a mandou bordar e me conseguiu as asas de plumas, que poucas meninas possuíam; ele guardou balas de coco brancas e rosas numa arca certa vez — acho que era um aniversário de meu avô: ficou-me a imagem das bandejas de prata, repletas de balas, numa arca, enfunadas nas fazendas brancas da roupa de cama de meu tio —; ele “tomou as providências” quando da morte de meus avós. Sempre repartiu, conosco, o que de saboroso tivesse — um pastelzinho folhado que fosse —; ele fez e faz por todos da família de forma cuidadosa e amorosa, pois é ele quem tem, sempre, de “tomar as providências”.

O cuidado de meu tio, Toledo, com tudo o que o cerca, é, aliás, o que sustenta a sua honestidade inquebrantável, que nunca vi semelhante. Como uma fazenda cortada e costurada por meu avô é limpíssima, nela nenhuma linha sobra, meu tio absorveu o que de mais limpo e austero meus avós lhe ensinaram, pois ele era como prataria afeita ao lustro que lhe revelou o cuidado, o amor, a honestidade, a limpeza e a austeridade de sua índole.

O anjo do mês de Maria que fui, enfrentando, criança, a noite gelada, sem agasalho algum por baixo do cetim que meu tio me dera — pois eu desejava que tão formidável presente aparecesse na sua melhor forma: no seu caimento vulnerável, pesado e líquido —, descendo, numa corrida, o morro, para chegar logo à Igreja dos Passos em túnica tão rica, ainda o vê como uma entidade do bom e do belo, em que deposita toda sua fé infantil, a mais verdadeira que existe.